Consultoria: deixou de ser promessa e virou inevitável
25 de novembro de 2025
Está gostando do conteúdo? Compartilhe!
Faz poucos anos, quando começamos a falar da ascensão das consultorias de investimento, parecia ficção científica.
Semana passada tivemos o prazer de receber, no nosso escritório, convidados do mercado de consultoria para conversar sobre o momento do setor. Aproveitamos a presença de muita gente em São Paulo para o 3º ABCVM – Associação Brasileira dos Consultores de Valores Mobiliários SUMMIT para discutir pautas relevantes do segmento.
O evento lotou a sala, ficou gente de pé, e durou mais de 3 horas. Vamos tentar resumir aqui os principais tópicos abordados para você que não pode estar presente e se interessa pelo tema. Uma coisa ficou claro: o mercado virou a chave.
Consultoria não é mais “tendência”, é realidade operacional, regulatória e comercial e com uma velocidade rara no mercado brasileiro.
Dividimos o evento em 3 partes. Na primeira, Patricia Lima, nossa co-CEO e sócia fundadora trouxe números e perspectivas do mercado e como ele vem crescendo. Depois, a Luisa Penna, nossa RM, falou sobre como a iaas! pode ajudar consultores.
Logo a seguir, tivemos um painel sobre produtos: “Navegando na Complexidade”, com a moderação da Júlia Lewgoy, jornalista do Valor Investe e com especialistas em crédito, como a Claudia Pinheiro, do escritório Pinheiro Baruselli, em ETFs com o Bruno Stein da Galapagos Capital e tokenização com o Caue Duarte da Nexa Finance. O ponto aqui era falar sobre como os consultores precisam lidar com produtos de alta complexidade.
Na sequência, tivemos o painel “Amanhã, como vai ser?”, com Jose Eduardo Ribeiro Brazuna, co-CEO e sócio da iaas! e com a participação de Daniel Walter Maeda Bernardo da B3, Ricardo Mizukawa, da Bradesco Asset Management e Renato Breia, CFP®, da Nord Wealth discutindo como o mercado deve se configurar futuramente nos diversos canais de distribuição e serviços associados.
Se você não pode estrar conosco essa é uma excelente oportunidade de ver um breve resumo do dia incrível que tivemos na sede da iaas!
Uma conclusão foi evidente:
👉 Estamos entrando em um novo ciclo da indústria de investimentos e a consultoria é a peça central.
Abertura: Panorama do Mercado de Consultoria
Onde tudo começou e por que 2021 foi a virada
A Patricia Lima primeiro trouxe dados, e contra eles não há argumentos. Durante muito tempo, consultoria era uma figura quase marginal na regulação. Em 2001, existiam 68 consultores PJ registrados. Só isso já mostra o tamanho da revolução hoje, quando temos quase 500.
A curva muda em três momentos:
- 2017 – ICVM 592: A consultoria é melhor formalizada como modelo de negócio PJ por este novo marco regulatório. O mercado nasce, mas ainda engatinha;
- 2017–2021 – Seleção natural: Muitas consultorias antigas fecharam pois se adaptar a nova regulação demandava foco. Pela primeira vez, ficou claro: consultoria é uma atividade regulada, com obrigações, políticas, PLD/FT, suitability, governança. Não é mais uma mera empresa de prateleira muito simples;
- 2021 – RCVM 19: O marco zero do que estamos vivendo agora. Aqui o mercado entende que existe espaço para um novo modelo de negócio, descolado do conflito estrutural das assessorias tradicionais.
O resultado? 2025 deve fechar com ~500 consultorias ativas e mais de 2.000 consultores PF registrados.
É um mercado que já cresce mais de 30% ao ano.
O Brasil e os EUA: estamos muito no começo
Nos EUA:
- Mais de 15.000 RIAs;
- Mais de 60 milhões de americanos atendidos;
- Mais de US$ 144 trilhões em ativos sob gestão/aconselhamento por consultores.
O dado que mais importa para o Brasil? Mais da metade dos RIAs atendem indivíduos. Ou seja, o paralelo com a consultoria é direto: empresas pequenas, enxutas, eficientes e com muita demanda.
O que explica esse boom no Brasil?
a. A busca pelo modelo menos conflitado
O investidor percebeu. As plataformas perceberam. O mercado inteiro percebeu.
O cliente quer:
- recomendação sem conflito;
- alinhamento de interesse;
- regras claras;
- personalização;
- transparência.
Essa é a tese viva por trás do crescimento.
b. Tecnologia e automação o “combustível da escala”
Patricia foi direta no evento: consultoria só escala se tiver estrutura.
E estrutura não é luxo: é política, cadastro, trilha de auditoria, PLD/FT, suitability, contratos, obrigações normativas.
A Luisa Penna mostrou isso com clareza: o consultor não pode se perder em burocracia e a iaas! existe para tirar esse peso das costas.
- onboarding e esteira de cadastro de clientes;
- classificação automática de risco (PLD/FT);
- análises reputacionais;
- suitability completo;
- controle de vencimentos e renovação dos dados;
- contratos integrados via Clicksign;
- trilha de compliance e monitoramento;
- políticas atualizadas anualmente;
- controles e protocolos de obrigações regulatórias no CVMWeb sem fricção.
Se consultoria é a estrada, iaas! é o asfalto.
c. O regulador entrou no jogo
Pela primeira vez na história, CVM e ANBIMA colocaram consultoria no centro das agendas:
- debate sobre execução direta é o futuro;
- discussão sobre modelos de performance;
- clarificação de obrigações;
- aproximação institucional;
- olhar de supervisão mais claro e respeitoso.
O setor deixou de ser “periférico”. Agora é estratégico.
Painel 1: Navegando na Complexidade de Produtos
Moderadora: Julia Lewgoy (jornalista Valor Investe). Painelistas: Cláudia Pinheiro, do escritório Pinheiro e Barucelli), Bruno Stein (Galapagos) e Cauê Duarte (Nexa Finance).
O outro lado da moeda: produtos ficaram mais complexos
O painel do evento foi perfeito para mostrar isso.
Crédito privado (com Claudia Pinheiro)
- não existe “CRI é CRI”; estruturas mudam radicalmente a cada operação;
- governança importa tanto quanto retorno;
- documentação precisa ser lida, entendida e explicada;
- monitoramento é parte essencial do processo.
ETFs (com Bruno Stein)
Uma frase do Bruno resume tudo:
“ETF bom resolve um problema real de forma simples.”
Lá fora, ETFs já são o veículo natural da gestão profissional. Aqui, a expansão de ETFs internacionais e de renda fixa abriu o jogo para os consultores finalmente operarem com eficiência e sem conflito.
Tokenização (com Cauê Duarte)
Talvez o tema mais avançado do painel. Não é mais futuro é presente:
- mais de US$ 30 bi tokenizados no mundo;
- mais de R$ 5–6 bi tokenizados no Brasil;
- bancos grandes entrando;
- mudança regulatória nos EUA acelerando tudo;
- ativos antes inacessíveis agora virando “tijolinhos digitais” de R$ 100,00.
A síntese do Cauê:
“É a tecnologia dos criptoativos usada para dar acesso a ativos tradicionais.”
E o consultor no meio disso tudo? Esse é o ponto mais crítico. O consultor deixou de ser ‘um prestador’ e virou ‘uma empresa’. O consultor precisa:
- conhecer seus clientes (PLD/FT);
- justificar recomendações;
- registrar trilhas de auditoria;
- manter políticas internas;
- revisar cadastros;
- ter governança;
- monitorar riscos;
- cumprir normas.
E, ao mesmo tempo:
- entender crédito;
- entender ETFs;
- entender tokenização;
- entender fundos;
- entender tributação;
- entender plataformas (e negociar com elas…).
A profissão ficou mais sofisticada e mais estratégica.
Painel 2: Amanhã como vai ser?
Moderador: José Brazuna (co-CEO e sócio-fundador da iaas!). Painelistas: Daniel Maeda (B3), Ricardo Mizukawa (Bradesco Asset Management), Renato Breia (Nord Wealth).
Este painel abordou a estruturação do negócio de consultoria (“B2B”) e o futuro da distribuição de investimentos.
O mapa competitivo está mudando
O evento também trouxe projeções importantes:
- plataformas estão se reposicionando para o modelo fee-based;
- bancos querem entrar no jogo;
- grandes consultorias começam a agregar as menores;
- o regulador observa de perto;
- corretoras podem tentar direcionar e distorcer o modelo via rebates indiretos ou convencer o regulador de “liberar geral”;
- mas hoje os clientes começam a perceber tudo isso.
Ou seja: a indústria está em movimento acelerado. Quem se estrutura agora sai na frente.
O Desafio de Escalar
Consultoria como Empresa: Foi discutido que muitos consultores focam apenas no relacionamento comercial e negligenciam a estrutura empresarial (processos, RH, tecnologia). O valor do equity da empresa depende dessa estrutura, não apenas da carteira de clientes.
Prospecção digital: Breia compartilhou que o sucesso da sua consultoria veio de um forte investimento em captação digital. Eles criaram uma “máquina de vendas” que alimenta os consultores, tirando a dependência exclusiva de indicações (referral).
Eficiência Operacional: Consultores perdem muito tempo com planilhas e burocracia. O objetivo de plataformas B2B é permitir que o consultor gaste 80% do tempo com o cliente.
Modelos de Negócio e Conflitos
Assessor vs. Consultor: Debateu-se a confusão entre o modelo de agente autônomo (comissionado) e o consultor (fee-based). Há um movimento de consultorias dentro de escritórios de assessoria, o que pode gerar novos conflitos se não for transparente.
Crescimento Acelerado: Brazuna apresentou gráficos mostrando o crescimento exponencial de consultores PJ no Brasil, traçando um paralelo com a indústria de gestoras (Assets), que demorou anos para maturar. Ele projetou que, mantendo o ritmo atual, o mercado de consultoria pode facilmente chegar a 2 a 3 mil empresas nos próximos 15 anos.
Desafios do Empreendedor Consultor: Foi destacado que muitos consultores focam apenas no relacionamento e esquecem que a consultoria é uma empresa que precisa de estrutura, governança e processos.
Visão dos Grandes Bancos
Consultoria como Eficiência: Os bancos estão começando a ver o consultor independente não como inimigo, mas como um canal eficiente de distribuição que reduz custos internos. Em vez de manter uma estrutura cara de gerentes e especialistas para atender a todos, o banco pode focar no atacado e produtos, deixando o relacionamento na ponta para o consultor.
Diagnóstico do Cliente Brasileiro: Apresentou dados alarmantes de que 70% das famílias brasileiras estão endividadas e 75% não possuem seguros, reforçando que o mercado potencial para consultoria financeira vai muito além de apenas alocação de investimentos (envolve planejamento de vida e proteção).
Risco de Estratégia: Alertou que o maior risco para as empresas hoje não é apenas mercado ou crédito, mas o “risco de estratégia” a incapacidade de se adaptar às mudanças disruptivas no modelo de distribuição.
Visão da Infraestrutura
Fomento a Produtos Listados: A B3 vê com bons olhos o crescimento dos consultores independentes (fee-based), pois eles tendem a alocar mais em produtos listados (como ETFs, FIIs, Ações) disponíveis na bolsa, ao invés de produtos “bancarizados” ou exclusivos de prateleiras fechadas.
Open Finance e Dados: Houve uma discussão relevante sobre a dificuldade de centralizar a visão do patrimônio do cliente. A B3 naturalmente poderia ser um concentrador (hub) de informações, mas esbarra no protecionismo de dados das instituições financeiras, que dificultam a portabilidade e a visão consolidada para o consultor.
Debates Centrais
Tecnologia vs. Humano: Discutiu-se uma pesquisa da CVM onde clientes afirmaram preferir “autoatendimento” (sites/apps) a consultores. O painel debateu que isso reflete uma desilusão com o conflito de interesses do modelo antigo (gerente/assessor comissionado) e que a tecnologia deve ser usada para criar “super-humanos” (consultores empoderados), e não para substituir o contato pessoal.
Transparência: Foi reforçado que o cliente já percebeu os conflitos do modelo de “shopping financeiro” (XP/BTG/Corretoras) e busca isenção. A transparência virou uma exigência do consumidor antes mesmo de ser uma exigência regulatória total.
Resumo: O que aprendemos no evento
Três mensagens finais ficaram muito claras:
1) O mercado é gigante e ainda está no início
Se os EUA têm 15.000 RIAs, o Brasil pode tranquilamente ter 2.000–3.000 consultorias nos próximos anos.
2) Escala só vem com governança e tecnologia
O consultor precisa dedicar seu tempo ao que só ele pode fazer: cuidar do cliente e do patrimônio dele.
O resto compliance, obrigações, processos a iaas! resolve.
3) Mas a “profissão precisa de profissionalizar”
Estamos falando de estrutura, não de “atividade auxiliar”. De empresa, não de “pessoa física oferecendo opinião”.
Fechamento
Se 2023 e 2024 foram os anos do “despertar”, 2025 é o ano da consolidação.
Para quem vive o mercado de perto, como nós na iaas! , a sensação é clara: estamos diante do maior salto de maturidade das últimas duas décadas do mercado brasileiro.
A consultoria virou responsabilidade, escala, governança, tecnologia e, principalmente, confiança.
E isso só está começando.
Pontos Chaves para Consultores
1. Profissionalização Obrigatória: A consultoria deixou de ser um “bico” ou apenas relacionamento. Exige compliance robusto (CVM 50/30/19) para ser sustentável.
2. Simplificação para o Cliente: Seja via ETFs, Tokenização ou explicação de Crédito Privado, o papel do consultor é curadoria e tradução da complexidade, resolvendo problemas reais de alocação.
3. Tecnologia como Alavanca: Não é possível escalar o negócio de consultoria dependendo apenas de processos manuais. O uso de plataformas para back-office é essencial para liberar tempo comercial.
4. Tendência de Mercado: O modelo fee-based e independente continua crescendo aceleradamente, com o regulador (CVM) e grandes players (Bancos/B3) adaptando suas infraestruturas para atender a essa nova realidade.


