Temos de falar de KYC/PLD/FT e outras letrinhas

11 de setembro de 2025

Está gostando do conteúdo? Compartilhe!

WhatsApp
LinkedIn

A aparente tranquilidade na Faria Lima, após a enorme operação policial de busca e apreensão de alguns dias atrás é apenas aparente. As consequências reverberam no ambiente de negócios.

E não estamos falando aqui sobre os gestores e administradores investigados pela Polícia, que, pelo enorme impacto reputacional, correm agora para buscar soluções para a venda de seus negócios antes que eles se esfacelem. Afinal a polícia batendo na sua porta, cogitando seu envolvimento com o PCC é uma bomba detonadora de reputações.

Estamos falando é de dúvidas e mais dúvidas de como se relacionar com clientes, contrapartes e montar produtos de agora em diante.

A “segunda onda” é mais poderosa, e, não está nas manchetes policiais, mas é tema agora entre gestores, administradores, estruturadores, compliance e mais um monte de gente. Quais as lições de casa não vem sendo feitas, e/ou quais aprimoramentos precisaremos fazer em procedimentos e regulação de KYC/PLD/FT?

Vamos primeiro dissecar estas letrinhas. KYC é uma terminologia comercial básica do inglês “Know Your Client”.

Já PLD/FT vem dos diversos normativos da CVM que norteiam o relacionamento com investidores e contrapartes, e impõem a derradeira obrigação de endereçar políticas para identificação dos beneficiários finais dos clientes envolvidos nos negócios relacionados ao mercado de capitais em geral.

Recomendamos em especial a leitura da Resolução CVM 50, que é o pilar central de regras de “prevenção à lavagem de dinheiro, ao financiamento do terrorismo e ao financiamento da proliferação de armas de destruição em massa” (o tal do PLD/FT). Ela dita as regras de cadastro e controle de clientes e contrapartes no mercado de capitais.

Nela, a palavra “beneficiário final” aparece 21 vezes, em suas 38 páginas.

Não entraremos aqui na seara de como o dinheiro de origem ilícita “entrou” no mercado, pelas “fintechs” e suas chamadas “contas bolsão” e tudo que foi engenhosamente traçado pelos jornais. O foco aqui da discussão envolve o passo seguinte.

Após o dinheiro ilícito “adentrar” ao mercado de capitais, como ele se manteve por lá, em estruturas customizadas de fundos e securitização, com todo o complexo arcabouço de KYC/PLD/FT imposto pela CVM para o relacionamento recorrente com clientes?

Uma coisa é o dinheiro “passar”, outro é ele ficar. Como estes clientes conseguiram tão facilmente se estabelecer como cotistas de fundos e como empresas que transacionavam títulos de crédito com FIDCs? Como tais empresas e clientes conseguiram se manter como contrapartes ou cotistas em FIPs e FIIs e suas empresas e imóveis?

Nossa legislação é bastante explícita sobre a identificação do beneficiário final. Mas, aparentemente ela é subavaliada pelo mercado, pelo seu porte e complexidade e também pela falta de capacidade dos reguladores de agirem de maneira ostensiva nos controles e fiscalização da aplicação correta da Resolução CVM 50 em sua plenitude.

Os casos envolvendo a operação policial não são os únicos que denotam a questão da falha em atingir o beneficiário final. Recorrentemente nos jornais nos deparamos com discussões de que fundos de investimentos exclusivos diversos compram (ou vendem) agressivamente posições em empresas de capital aberto, e, que tais veículos mascaram as vezes um só investidor, e, por falha em sua identificação, gestores e administradores não cumprem as obrigações de avisos necessários na norma sobre participação relevante de investidores. Ou mesmo que tais redes de sócios não muito claros deixam dúvidas em casos de votos em assembleia ou da obrigação ou não de respeito a cláusulas de “tag along” em hipóteses que poderiam configurar mudança de controle de empresas.

Esses episódios todos tem relação semelhante. Neles, gestores e administradores se armam de bons argumentos jurídicos para explicar que não conseguem chegar aos beneficiários finais.

Explicações assim certamente serão utilizadas nos casos relativos aos episódios dos fundos potencialmente envolvidos com o PCC. Vai sempre se argumentar que se fez os melhores esforços para essa identificação.

Pois bem, como empresário, existem dois caminhos muito simples: (i) investir pesado em sistemas e controles e (ii) se mesmo assim não conseguir cumprir as obrigações da Resolução CVM 50, de identificação do beneficiário final, abrir mão do negócio, deixando de ser administrador ou gestor de tais fundos ou estruturas.

Mas eis que a força do hábito fala mais forte, e, vai se protelando a efetividade dos controles internos de KYC/PLD/FT. E ai no mercado existe gente que compra um risco, e outros que não compram. Vira quase um “life style”.

Sobre o tema, recomendamos a leitura da coluna do excelentíssimo ex presidente da CVM Marcelo Trindade no Valor Investe. Leia no link abaixo:

O beneficiário final | Colunas de Marcelo Trindade | Valor Investe

Será que teremos de melhorar a legislação em sí, que tem uma boa receita de bolo? Ou focar nos meios para que ela seja cumprida, o “enforcement” e protocolos mais rigorosos de “o que fazer” quando há lacunas sobre beneficiários finais? Este parece um caminho potencial.

Mas, antes disso, há muito a ser feito, para quem não acha que fazer negócios obscuros é um ramo de atuação.

No dia a dia, em conversas com gestores, administradores, consultores, estruturados e “family offices”, vemos que a cultura de processos formais de KYC/PLD/FT tem muito o que evoluir.

Aparentemente muitos ainda fazem estes processo “no google” (ou talvez no chat-gpt). Ou se pensa o seguinte: eu já conheço esse cliente, e os bancos e corretoras já fizeram esta verificação. Mesmo quando você “conhece o cliente” em uma reunião ou por ser um contato de longa data, é preciso ir mais longe.

Ainda existe uma cultura brasileira de não querer ser invasivo. O cliente acha chato preencher uma extensa ficha cadastral, mas é importante. Ter motores e peneiras de consulta de CPF e CNPJ, mesmo que de primeiro nível, traz sempre informações muito relevantes.

Em 90% dos casos, mesmo buscas que não vão além do CNPJ de uma empresa trazem indícios muito claros de situações “estranhas”. Mas boa parte do mercado ainda acredita que isso não é assim tão relevante. Que um banco ou corretora já estará fazendo isso.

Quando falamos de FIDCs, FIIs e FIPs, as dúvidas e falhas se aprofundam. O foco é muito grande em cima da estruturação, e no que diz respeito a verificações de KYC/PLD/FT, a sensação é que muitas vezes apenas se “tira uma foto” (quando muito), sempre pensando que se conhece com quem se está fazendo negócio e que tudo é muito custoso. E as esteiras de geração de crédito são muito rápidas e pulverizadas, e KYC/PLD/FT onera o processo.

Já existem inúmeras bases de dados e ferramentas para verificação de KYC/PLD/FT, e com o advento da Inteligência Artificial, estes cruzamentos se tornam dinâmicos e infinitos. Mas vai ter sempre custo que hoje o mercado aparentemente mais “paga para ver” do que “paga para fazer”.

Muito teremos de discutir sobre aprimoramentos de legislação, fiscalização e mercado, mas, boa parte da discussão não será sobre inovações, mas, voltar as bases e fazer o básico, passar uma “peneira grossa” sobre nossos interlocutores e clientes. E, implementar processo de governança de que negócios fazemos e qual não fazemos.

Isso já faria uma diferença enorme…

Ultimas edições

Fale Conosco

Marcos Lemos

Com uma sólida experiência acadêmica e profissional, foi pesquisador na Universidade de São Paulo por quase quatro anos, contribuindo significativamente em projetos diversos, além de atuar como docente universitário.

Possui um histórico comprovado de excelência na academia e no mercado, sempre buscando soluções inovadoras e eficientes.

Ana Flávia

Bacharelanda em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Formação com foco no desenvolvimento de uma visão abrangente e habilidades analíticas para enfrentar situações e desafios econômicos reais.

Possui interesse em área de processamento de automação e uso de tecnologia no mercado financeiro.

Brenda Almeida

Atualmente, cursando Matemática Aplicada a Negócios na USP.

Com base no conhecimento adquirido durante o curso, possui uma sólida formação em matemática pura, administração, contabilidade, economia e computação.

Thiago Antonio

É bacharelando em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

Possui uma sólida formação acadêmica no campo da Economia, tendo como foco o desenvolvimento de uma visão abrangente e de habilidades analíticas para aplicação em situações e desafios econômicos reais.

Maurício Castanheira

Maurício foi executivo de negócios de empresas de tecnologia do mercado financeiro de renome, dentre elas a Britech, BLK e Luz Soluções Financeiras. Trabalhou no pregão na BM&F (atual B3) por 10 anos e em instituições financeiras como a Hedging Griffo. É formado em Administração na Universidade São Judas.

Na iaas! irá atuar na área comercial e prospecção de negócios.

Juliana Medeiros

Formada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestranda em Direito Empresarial Internacional pela Universitè Libre de Bruxe les, Juliana atuou em gestoras e escritórios de destaque no mercado brasileiro e internacional.
Na iaas! dará mais substância a nossas análises e produtos, suportando nossas demandas na área jurídica.

Vinícius Herculano

É bacharelando em Matemática Aplicada a Negócios pela Universidade de São Paulo(USP), com uma sólida formação acadêmica que abrange tanto a área de economia quanto de computação.

Barbara Brito

Formada em Administração de empresas e cursando pós-graduação em Gestão de Vendas pela USP. Possui sete anos de experiência no mercado financeiro.

Participou de projetos que resultaram em aumento de qualidade e produtividade. Conhecimento em: Renda Fixa, Renda Variável, Derivativos,  zeragem de caixa e provisionamento de despesas, gestão de fundos e carteiras, análise operacional, relatórios financeiros, intermediação no cadastro de FIDC’s, fundos e cotistas, contrato de câmbio, abertura e manutenção de contas PF e PJ, análise de movimentações entre contas e/ou fundos, Processo de Due Diligence, análises quantitativas e qualitativas no Processo de Seleção de Fundos, Lâminas de Perfomance de Fundos e Prospecção e Pós-venda de clientes.

Sarah Alves

Bacharel em Administração, curso de especialização e pós-graduação em Gestão Estratégica de Processos Corporativos na PUC Minas Gerais.

Possui profunda experiência em melhoria de processos no mercado financeiro, trabalhando por mais de 4 anos em bancos, sendo 3 deles na área de investimentos.

Bruno Almeida

É Bacharelando em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e Bacharel em Ciências Humanas pela mesma universidade, com formação acadêmica voltada para as complexidades das relações humanas no mercado de trabalho.

Lucas Silvestre

Formado em Sistemas de Informação pela USP, com oito anos no mercado financeiro e dez em tecnologia. Finalizou um bootcamp em Ciência de Dados, aprimorando habilidades em tecnologias de ponta. Notável por inovação e soluções exclusivas para problemas complexos.

Atuou como Head de Middle Office na Neo, responsável por processos de back-office e middle-office. Mantém-se atualizado, focando em Inteligência Artificial e áreas afins.

André de Caires

Formado em Administração na Universidade Presbiteriana Mackenzie, com mais de 6 anos de experiencia em gestão financeira, desenvolvimento de métodos operacionais, controles internos e gestão de conflitos.

Foi responsável pela tratativa de demandas judiciais emitidas pelo Banco Central/CNJ para as instituições Crefisa Financeira e Banco Crefisa.

Débora Gomes

Formada em Administração de empresas pela UNIFECAF, possui também diversas certificações e treinamentos realizados na B3, ANBIMA, BR GOVERNANCE, SEBRAE e SENAC.

Mais de 15 anos de experiência no setor corporativo em diversos segmentos de administração, cadastro, financeiro e controles.

Ricardo Couto

CEO da Direto, uma proptech financeira dos grupos XP e Direcional. Foi sócio de Estruturação da i476 e Diretor de Investimento do Banco Inter, liderando as áreas de Mercado de Capitais, Fundos Imobiliários, Research e Trading.

Professor do IBMEC e da Fundação Dom Cabral, possui graduação em Engenharia Elétrica pela UFMG, MSc International Finance pela University of Westminster (UK) e Doutorado em Estatística pela UFMG.

É membro regular da American Statistical Association, do CFA Institute e da CFA Society Brazil, onde é Membro dos Comitês de Advocacy e Eleitoral.

Ao acessar este site, alguns dados de seu dispositivo podem ser coletados, bem como cookies, a fim de que possamos fornecer conteúdos personalizados para você. Se desejar saber mais, acesse nossa Política de Privacidade. Para aceitar, clique em ‘Aceito’.