A Boca da Faria Lima

04 de setembro de 2025

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Difícil passar sem falar das operações policiais em diversas instituições do mercado de gestão, administração de recursos e “fintechs” na semana passada. E, uma simbologia enorme é que tantos endereços “alvo” eram ao longo da Avenida Brigadeiro Faria Lima, a Wall Street brazuca.

Tristeza ver isso. Mas é importante decompor vetores que somados levaram a essa trajetória, e tirar lições disso.

PRIMEIRO VETOR: o mercado de capitais brasileiro presente traz um nível enorme de sofisticação nas estruturas para a indústria de fundos, securitização, crédito, imobiliário e de participações em empresas.

Graças a este avanço, hoje o investidor brasileiro tem produtos sensacionais, com aplicação mínima inferior à R$ 1.000,00. As plataformas avançaram na “desbancarização” e temos um universo de milhares de empresas competindo com bancos, como as corretoras, gestoras, distribuidores, MFOs, consultores e assessores de investimento.

SEGUNDO VETOR: O Brasil é linha de frente no mundo em inovação financeira, o que abriu um flanco de competição com os bancos. A legislação bancária nos últimos 10 anos foi revolucionária em dar espaço e competitividade à inovação em soluções independentes de meios de pagamento e crédito.

E, para a guarda, movimentação e pagamentos de recursos, tudo é acessível, automático e barato. Tarifas bancárias para manutenção de conta corrente e serviços transacionais foram esmagados quase a zero. A burocracia de abertura de contas e cadastros ganhou fluidez e velocidade.

Não faz muitos tempo que você só conseguia usar cartão de crédito em lojas ou restaurantes acima de determinado valor mínimo, relativamente alto. Hoje você paga uma bala de R$ 1,00 com cartão de crédito. A tecnologia foi tão longe, que nas ruas de São Paulo, os pedintes no farol agora ostentam pedaços de papelão com sua chave: é a “esmola em PIX”.

TERCEIRO VETOR: a dinâmica tecnológica, social, da velocidade dos negócios, das redes, da comunicação e das pessoas facilita em muito a criação de histórias de sucesso que parecem bacanas, com uma visão superficial de sua origem. Hoje existe uma grande fluidez de CPFs, CNPJs, websites, escritórios, imagens, e histórias de negócios e pessoas de sucesso que surgem do dia para a noite.

É muito rápido constituir personas físicas e jurídicas e narrativas que se acoplam à sociedade. Ninguém verifica muito. Você mal sabe quem é seu vizinho ou o que ele faz para ganhar dinheiro. Existe uma tendência a rapidamente aceitar “cases de sucesso”,e, até pega mal desconfiar, para não “pagar” de desinformado.

Os avanços tem aspectos muito bons, mas amplia brechas.

A resultante dos vetores, é que não dá para imaginar que o Brasil da tecnologia do mercado financeiro – das “startups” de pagamento, da movimentação de recursos (instantâneo, barato e pulverizado), e da criação de narrativas – consiga viver em uma bolha, isolado de suas enormes diferenças sociais, da violência, da insegurança e do crime organizado.

Difícil achar que ninguém vá se aproveitar de tudo.

A operação semana passada é uma alegoria: se o mercado e a sociedade ganha velocidade, e se sofistica, o crime também o faz.

A busca por “bancarizar” recursos ilícitos não é novidade no mundo. É muito dinheiro para ficar escondido embaixo do colchão. O que vimos na semana passada com as viaturas de polícia foi apenas uma ponta do iceberg do que nosso país precisa se atentar.

Engraçado que, na vida cotidiana as pessoas falam sobre o porte dos grandes grupos do crime organizados, e como eles estão infiltrados no dia a dia da economia. Seria ingênuo imaginar que os bilhões e bilhões ligados ao crime, e diversas empresas e fluxos de fachada não tivessem de ocultar ou legalizar estes recursos, e que trabalhassem isso apenas com negócios paralelos e clandestinos, e não com negócios com aparente legalidade (e no mercado financeiro também).

A operação policial na Faria Lima é mais uma camada da sociedade. Há uma imensa rede de negócios e empresas que visam dar ar de legalidade a negócios ilícitos, na busca incessante de “esquentar” estes recursos. E, no porte e sofisticação ao qual o crime organizado apresenta, aparentemente nenhum setor sai incólume.

Na competição do mercado financeiro, e, na busca por sucesso das “startups”, ser agressivo e tomar risco pode levar a se tentar aproveitar oportunidades sem o devido cuidado.

E como o crime organizado vem sofisticando suas estruturas empresariais, eis que gestores e administradores de fundo e “fintechs” acabam por baixar a guarda, a título de serem mais ousados. Melhor pensar assim do que achar que há uma robusta rede de instituições dedicadas ao crime no mercado financeiro.

Fácil crer que existem sim empresas mais a margem do mercado que efetivamente podem ter sido constituídas por empresários operando em conluio com o crime organizado. Mas, parece um pouco difícil de admitir que haja uma enorme cadeia de “players”, dentro do mercado financeiro e de capitais, em consciente associação com a “bandidagem”, e, entendendo a lavagem de dinheiro como um “core business”.

As legislações de lavagem de dinheiro são bastante categóricas em questões como a busca dos beneficiários finais de contas e negócios em geral. Mas, em um mercado em que a democratização dos investimentos e meios de pagamento, e, em que a tecnologia levou a possibilidade de milhões e milhões de transações por segundo, a fração de centavos, e com a interconexão destes mercados, tudo fica muito complexo de ser gerenciado, e, falhas e “gaps” abrem mais espaço para a “arbitragem criminal”.

Na mesma velocidade que os fluxos financeiros avançaram, hoje existem diversas ferramentas de PLD e de mapeamento de dados de pessoas e empresas. Mas, ao mesmo tempo, a facilidade de montagens de estruturas societárias e empresarias é óbvia, rápida e acessível. Aumentam as possibilidades de se esconder recursos ilegítimos em cadeias intermináveis de CNPJs e CPFs. E que muitas vezes, ao verificar fontes públicas, balanços, e dados bancários, apresentam aparente regularidade.

Fica também cada vez mais difícil você “ter certeza” se determinado cliente é ou não idôneo, já que o crime está bastante enraizado em negócios que estão ai, funcionando a luz do dia, como padarias, postos de gasolina, restaurantes e outros segmentos que são mais fragilizados quando o tema é lavagem de dinheiro e ocultação de recursos.

Neste ambiente, instituições mais “tomadoras de risco” – como muitas que foram objeto das operações policiais – vão tentar comprovar que fizeram verificações relativas à PLD de contrapartes e negócios. E provavelmente vão conseguir provar que fizeram algo razoavelmente aceitável do ponto de vista jurídico, e, sofrer punições menores. Difícil achar que sejam “gestoras do crime”.

Porém, no mundo de hoje, a conclusão é que mesmo quando você não consegue achar provas evidentes de que determinada empresa tem recursos de origem duvidosa, você precisa reprovar determinados negócios porque achou “estranho” ou por serem setores de risco. Então a real punição destes empresários se dará “via mercado” perdendo negócios por feridas reputacionais que podem ser irreversíveis.

Sejam negócios com empresas ou pessoas de repentino sucesso sem muita clareza a respeito, sejam performances profissionais ou empresarias muito acima da média ou “startups” excessivamente “inovadoras” – que você não entende bem porque dão tão certo – fique cada vez mais atento. Hoje estas “mensagens subliminares” precisam ser lidas e são muitas vezes mais relevantes que dados de cadeias de CNPJs, CPFs e balanços “fake”.

Ao fim e ao cabo, apenas realizar varreduras em sistemas de PLD não são mais algo suficiente para te proteger, frente a enorme sofisticação legal e contábil na cadeia de negócios ilícitos.

Faz sentido dar “tempo ao tempo”, desacelerar, ser menos ousado, estranhar negócios excessivamente fora do contexto médio dos setores e pensar melhor em qual é seu interlocutor. Estranhar empresas muito novas e de desempenho muito superior a sua média, e mesmo pessoas que despontam em pouco tempo como “cases” de sucesso profissional meteórico e que você não consegue entender muito bem. Vá com calma…

Os modelos regulatórios certamente apenderão com o ocorrido, e vamos ver a “barra subindo” em alguns aspectos.

Talvez tenhamos de voltar um pouco as bases e saber melhor “com quem estamos falando” antes de fazer negócios tão sofisticados (e em grande volume) na moderna e veloz Faria Lima. E não se trata de barrar a inovação e o empreendedorismo, mas de se proteger do “Brasil real” e sua criminalidade que, até uma semana atrás pareciam não frequentar o “condado”.

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Bacharelanda em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Formação com foco no desenvolvimento de uma visão abrangente e habilidades analíticas para enfrentar situações e desafios econômicos reais.

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CEO da Direto, uma proptech financeira dos grupos XP e Direcional. Foi sócio de Estruturação da i476 e Diretor de Investimento do Banco Inter, liderando as áreas de Mercado de Capitais, Fundos Imobiliários, Research e Trading.

Professor do IBMEC e da Fundação Dom Cabral, possui graduação em Engenharia Elétrica pela UFMG, MSc International Finance pela University of Westminster (UK) e Doutorado em Estatística pela UFMG.

É membro regular da American Statistical Association, do CFA Institute e da CFA Society Brazil, onde é Membro dos Comitês de Advocacy e Eleitoral.

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