Chapeuzinho e o lobo do mercado

26 de agosto de 2025

Está gostando do conteúdo? Compartilhe!

WhatsApp
LinkedIn

O alerta recente para o mercado de capitais

Quando vemos os materiais legais e de venda de um título estruturado no mercado de capitais, pode parecer que o regulador inventa papéis demais: securitizadora, estruturador, agente fiduciário, gestor, distribuidor… fica tudo muito complicado de entender o que toda essa gente faz.

Mas, quando vemos casos recentes envolvendo o mercado de CRIs, percebemos que não é a toa. Cada função existe para evitar conflitos e proteger o investidor. Mas para isso, é necessário muito cuidado e respeito aos ritos.

Securitização não é apenas “empacotar” um crédito e esperar que o credor pague. São muitas etapas para se chegar a isso. E muitas ciladas no caminho.

Tem sido intensos os debates na mídia sobre o caso recente de uma securitizadora que – dentre outras coisas – teria feito investimentos considerados “atípicos” com “fundos de reserva”, que congrega recursos de garantias de diversas operações de securitização (CRIs, principalmente).

E esses investimentos teriam sido feitos em uma emissão de CRI que ela mesmo estaria participando, dando garantia de sua colocação no mercado, e, para isso, utilizando recursos deste “fundo de reserva” para comprar esta emissão.

O “fundo de reserva”, de maneira simples, serve como garantia, para que o investidor receba, caso o fluxo de recebíveis falhe. Estes fundos são desenhados para dar mais segurança a uma operação. Podem ter coberturas em diversos níveis e situações. Por sua natureza, tipicamente se espera que tenha seus recursos aplicado em ativos líquidos e conservadores — títulos públicos, CDBs de primeira linha. Quando recursos dessa natureza são alocados em operações arriscadas ou pouco líquidas, o risco deixa de ser teórico e vira real.


Conflito de interesses + falhas de gestão = risco multiplicado

É natural que grupos empresariais no mercado financeiro concentrem diversas licenças reguladas que tem negócios entre si, e, naturalmente gerando conflitos de interesse: securitizadora, gestora, estruturação e distribuição. Isso não é errado. O problema começa quando os papéis potencialmente se misturam sem controles adequados.

A legislação prevê barreiras diversas – entre empresas de um mesmo grupo econômico – apenas a título de exemplo: segregação física, tecnológica, de funções, diretores estatutários distintos, mitigação, transparência e tratamento de conflitos de interesse, ritos de decisão e recomendação de comitês formais, transparência de dados e… se nada funcionar, punições. Mas, se a gestão for falha e os controles frouxos, os conflitos deixam de ser potenciais e podem se transformar em crise.

Aparentemente foi o que se viu no caso recente: excesso de poder em poucas mãos, pouca ingerência de compliance e governança, levando a decisões atípicas para uso dos fundos de reserva.


O alerta ao investidor

Para o investidor pessoa física, a lição é clara: não basta olhar apenas a taxa de retorno ou o benefício fiscal dos CRIs. É preciso entender quem está por trás da operação, como é a governança e se os mecanismos de proteção realmente funcionam. Diversificar também significa observar a securitizadora, os demais prestadores de serviço, e a relação entre eles (não apenas o emissor).

Conflito de interesses é inevitável em mercados sofisticados. Mas gestão adequada resolve, não? E é justamente a diferença entre os dois que define se um mercado amadurece – ou se vira manchete negativa.

Alerta ao Mercado

Para o mercado como um todo – securitizadoras, gestoras, estruturadores, reguladores e autorreguladores – o caso expõe pontos de atenção que não podem ser ignorados:

  1. Segregação real, não apenas formal: estruturas que concentram vários papéis em um mesmo grupo empresarial precisam provar que a independência decisória existe de fato, e não apenas no organograma;
  2. Governança ativa: compliance e comitês devem ter voz e poder de veto, evitando a centralização de decisões em poucos executivos;
  3. Controles sobre fundos de reserva: precisam ser reforçados, e isso se dá também com segregação adequada do gestor, evidências e tratamento de conflitos de interesse, e, com limites objetivos e maior transparência ao mercado;
  4. Transparência preventiva: comunicar potenciais conflitos antes que eles se tornem crises preserva a credibilidade do setor;
  5. Confiança como ativo coletivo: cada escândalo mina a confiança em toda a indústria de securitização, não apenas em uma empresa. Recuperar confiança é lento e custoso. Talvez os esforços de regulação e auto-regulação precisam ser intensificados neste setor.
  6. Punições: Claro e evidente, que falhas precisam ser adequadamente punidas, para mitigar o risco moral de parecer que “tudo vale a pena, se a punição é pequena”.

Como muitos CRIs são uma “cesta” de diversos recebíveis, é como na história da Chapeuzinho Vermelho, não basta confiar que a cesta estará sempre segura. Sem diligência, segregação, compliance, vigilância e governança, o lobo encontra espaço para agir.

Ultimas edições

Fale Conosco

Marcos Lemos

Com uma sólida experiência acadêmica e profissional, foi pesquisador na Universidade de São Paulo por quase quatro anos, contribuindo significativamente em projetos diversos, além de atuar como docente universitário.

Possui um histórico comprovado de excelência na academia e no mercado, sempre buscando soluções inovadoras e eficientes.

Ana Flávia

Bacharelanda em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Formação com foco no desenvolvimento de uma visão abrangente e habilidades analíticas para enfrentar situações e desafios econômicos reais.

Possui interesse em área de processamento de automação e uso de tecnologia no mercado financeiro.

Brenda Almeida

Atualmente, cursando Matemática Aplicada a Negócios na USP.

Com base no conhecimento adquirido durante o curso, possui uma sólida formação em matemática pura, administração, contabilidade, economia e computação.

Thiago Antonio

É bacharelando em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC).

Possui uma sólida formação acadêmica no campo da Economia, tendo como foco o desenvolvimento de uma visão abrangente e de habilidades analíticas para aplicação em situações e desafios econômicos reais.

Maurício Castanheira

Maurício foi executivo de negócios de empresas de tecnologia do mercado financeiro de renome, dentre elas a Britech, BLK e Luz Soluções Financeiras. Trabalhou no pregão na BM&F (atual B3) por 10 anos e em instituições financeiras como a Hedging Griffo. É formado em Administração na Universidade São Judas.

Na iaas! irá atuar na área comercial e prospecção de negócios.

Juliana Medeiros

Formada em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e mestranda em Direito Empresarial Internacional pela Universitè Libre de Bruxe les, Juliana atuou em gestoras e escritórios de destaque no mercado brasileiro e internacional.
Na iaas! dará mais substância a nossas análises e produtos, suportando nossas demandas na área jurídica.

Vinícius Herculano

É bacharelando em Matemática Aplicada a Negócios pela Universidade de São Paulo(USP), com uma sólida formação acadêmica que abrange tanto a área de economia quanto de computação.

Barbara Brito

Formada em Administração de empresas e cursando pós-graduação em Gestão de Vendas pela USP. Possui sete anos de experiência no mercado financeiro.

Participou de projetos que resultaram em aumento de qualidade e produtividade. Conhecimento em: Renda Fixa, Renda Variável, Derivativos,  zeragem de caixa e provisionamento de despesas, gestão de fundos e carteiras, análise operacional, relatórios financeiros, intermediação no cadastro de FIDC’s, fundos e cotistas, contrato de câmbio, abertura e manutenção de contas PF e PJ, análise de movimentações entre contas e/ou fundos, Processo de Due Diligence, análises quantitativas e qualitativas no Processo de Seleção de Fundos, Lâminas de Perfomance de Fundos e Prospecção e Pós-venda de clientes.

Sarah Alves

Bacharel em Administração, curso de especialização e pós-graduação em Gestão Estratégica de Processos Corporativos na PUC Minas Gerais.

Possui profunda experiência em melhoria de processos no mercado financeiro, trabalhando por mais de 4 anos em bancos, sendo 3 deles na área de investimentos.

Bruno Almeida

É Bacharelando em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC) e Bacharel em Ciências Humanas pela mesma universidade, com formação acadêmica voltada para as complexidades das relações humanas no mercado de trabalho.

Lucas Silvestre

Formado em Sistemas de Informação pela USP, com oito anos no mercado financeiro e dez em tecnologia. Finalizou um bootcamp em Ciência de Dados, aprimorando habilidades em tecnologias de ponta. Notável por inovação e soluções exclusivas para problemas complexos.

Atuou como Head de Middle Office na Neo, responsável por processos de back-office e middle-office. Mantém-se atualizado, focando em Inteligência Artificial e áreas afins.

André de Caires

Formado em Administração na Universidade Presbiteriana Mackenzie, com mais de 6 anos de experiencia em gestão financeira, desenvolvimento de métodos operacionais, controles internos e gestão de conflitos.

Foi responsável pela tratativa de demandas judiciais emitidas pelo Banco Central/CNJ para as instituições Crefisa Financeira e Banco Crefisa.

Débora Gomes

Formada em Administração de empresas pela UNIFECAF, possui também diversas certificações e treinamentos realizados na B3, ANBIMA, BR GOVERNANCE, SEBRAE e SENAC.

Mais de 15 anos de experiência no setor corporativo em diversos segmentos de administração, cadastro, financeiro e controles.

Ricardo Couto

CEO da Direto, uma proptech financeira dos grupos XP e Direcional. Foi sócio de Estruturação da i476 e Diretor de Investimento do Banco Inter, liderando as áreas de Mercado de Capitais, Fundos Imobiliários, Research e Trading.

Professor do IBMEC e da Fundação Dom Cabral, possui graduação em Engenharia Elétrica pela UFMG, MSc International Finance pela University of Westminster (UK) e Doutorado em Estatística pela UFMG.

É membro regular da American Statistical Association, do CFA Institute e da CFA Society Brazil, onde é Membro dos Comitês de Advocacy e Eleitoral.

Ao acessar este site, alguns dados de seu dispositivo podem ser coletados, bem como cookies, a fim de que possamos fornecer conteúdos personalizados para você. Se desejar saber mais, acesse nossa Política de Privacidade. Para aceitar, clique em ‘Aceito’.